477 anos da cidade da Bahia
Curadoria | Curated by Chico Mazzoni e Angela Petitinga
477 ANOS DA CIDADE DA BAHIA
Exposição coletiva de arte
Surpreende-nos a capacidade de renovação de Salvador — a velha Cidade da Bahia, São Salvador da Baía de Todos os Santos. Ela sempre se reinventa quando os propósitos são verdadeiros, sobretudo quando se trata de arte contemporânea.
A exposição coletiva 477 ANOS DA CIDADE DA BAHIA, instalada na sala de exposições do Museu da Misericórdia, é uma das provas vivas desta renovação. Nela o novo se apresenta como horizonte. As janelas que se abrem sobre a Baía de Todos os Santos nos sinalizam o quanto a cidade inteira torna-se, ela própria, matéria estética — um corpo antigo que insiste em pulsar o futuro, inspirando incessantemente o movimento da arte.
Nesta edição inaugural, 61 artistas baianos ou naturalizados baianos ocupam o espaço para afirmar que a contemporaneidade é um território que já nos pertence. A mostra reúne 51 obras bidimensionais em linguagens e técnicas que ousam sem pedir licença, desde o desenho, a pintura, a fotografia e a joalheria, até as artes digitais e outros híbridos — além de 10 esculturas em metal, madeira, cerâmica e poliuretano. Entre elas, uma que utiliza o Raku, milenar técnica japonesa de emendar pedaços de cerâmica com ouro verdadeiro.
Quando a proposta da mostra foi lançada, em novembro de 2025, a adesão dos artistas foi imediata, intensa e renovadora. Não apenas pela potência criativa do grupo, mas também porque a Salvador de hoje, depois de um longo hiato de ausências e carências, estava faminta de arte que a celebrasse sem nostalgia e a representasse como ela merece.
Com o aval dos artistas, a curadoria presta ainda tributo ao mestre Carybé expondo duas de suas obras que se integram à nossa mostra, evocando sua devoção à Cidade da Bahia e sua imersão sagrada como obá de Xangô, iniciado no Ilê Axé Opô Afonjá. Nele a criação artística e a força ancestral, mais que em qualquer outro, se encontram para louvar e bendizer a nossa terra.
Mas esta exposição, na verdade, não se encerra em si. Ela se pretende semente a partir da qual os passos dados hoje tornar-se-ão caminho contínuo, encontro marcado, celebração que retorna. Por isso desejamos que a cada ano, no aniversário da cidade, ela e a arte voltem a se encontrar num espaço como este — reafirmando a renovação e a reinvenção, tão sinalizadoras da contemporaneidade.
Afinal Salvador já não se define mais pela sua idade, mas por sua capacidade infinita de recomeçar.
Pois que seja sempre nova. Sempre contemporânea. Sempre a Cidade da Bahia. E que retome o carinho aos seus artistas, como sempre acontecia!
Chico Mazzoni e Angela Petitinga
Curadores da exposição
Janeiro, 2026
A artista visual Ulla von Czékus participou da exposição com o trabalho Os Sachês de São Francisco.
477 YEARS OF THE CITY OF BAHIA
Group Art Exhibition
We are continually amazed by Salvador’s capacity for renewal—the old City of Bahia, São Salvador da Baía de Todos os Santos. It constantly reinvents itself whenever the intentions are genuine, especially when it comes to contemporary art.
The group exhibition 477 Years of the City of Bahia, installed in the exhibition galleries of the Museum of Mercy (Museu da Misericórdia), is living proof of this renewal. Here, the new emerges as a horizon. The windows opening onto the Bay of All Saints remind us how the entire city becomes, in itself, an aesthetic matter—a centuries-old body that continues to pulse toward the future, endlessly inspiring the movement of art.
In this inaugural edition, 61 artists from Bahia, whether by birth or adoption, occupy the space to affirm that contemporaneity is a territory that already belongs to us. The exhibition brings together 51 two-dimensional works in a variety of media and techniques that dare without asking permission, ranging from drawing, painting, photography, and jewelry design to digital arts and other hybrid practices. In addition, 10 sculptures in metal, wood, ceramic, and polyurethane are featured, including one created using Raku, the ancient Japanese technique of repairing ceramic fragments with real gold.
When the exhibition was first announced in November 2025, the response from artists was immediate, enthusiastic, and invigorating. This was due not only to the creative strength of the group but also because today's Salvador, after a long period marked by absences and shortages, was hungry for art that could celebrate the city without nostalgia and represent it as it truly deserves.
With the artists’ approval, the curatorial team also pays tribute to master artist Carybé by exhibiting two of his works as part of the show, evoking his devotion to the City of Bahia and his sacred immersion as an obá of Xangô, initiated into Ilê Axé Opô Afonjá. In him, perhaps more than in any other artist, artistic creation and ancestral strength come together to honor and bless our land.
Yet this exhibition does not end within itself. It aspires to be a seed from which the steps taken today may become a continuous path, a recurring gathering, a celebration that returns. For this reason, we hope that every year, on the city’s anniversary, Salvador and art may meet again in a space such as this—reaffirming the renewal and reinvention that so strongly signal the contemporary spirit.
After all, Salvador is no longer defined by its age, but by its infinite capacity to begin again.
May it always be new. Always contemporary. Always the City of Bahia. And may it once again embrace its artists with the affection that was once its hallmark.
Chico Mazzoni and Angela Petitinga
Curators of the Exhibition
January 2026
Visual artist Ulla von Czékus participated in the exhibition with the work Os Sachês de São Francisco.
*Livre tradução do texto curatorial.